Hoje eu gostaria de falar a você diretamente. Isto mesmo, papo reto, recado direto, sem nenhuma intenção oculta no coração.
Já faz algum tempo que a minha voz está silenciada, mas é chegada a hora de ecoar esta palavra guardada. E o assunto escolhido é algo que está meio perdido em direção e sentido. Falo de família, conceito cada vez mais relativizado quanto estigmatizado.
Sabe, eu vejo a família como um lugar aonde temos a oportunidade de aprender a amar. Há família em vários graus, como há amor em várias intensidades e dentre tantas possibilidades há aquela na qual nascemos ou mesmo a que escolhemos para nos abrigar. Entretanto, nem neste refúgio espetacular conseguimos o consenso com relação às ideias que insistimos em sustentar ou aos ideais que escolhemos desposar.
É perceptível, embora beira o incrível, que tenhamos a tendência egoísta de querer a concordância com tudo que pensamos, sentimos, valorizamos. Este comportamento, algo narcisista, só aceita o próximo quando vemos a vida por igual e juntos lutamos pelo mesmo ideal. Há que saber, porém, que amar não significa concordar. Aliás, se assim fosse, o amor não existiria, pois perdida a tolerância, nada resistiria à discordância e o relacionamento, antes cercado de importância, perderia a sua elegância. E a vida assim seria tão somente uma torrente insistente de inconstância a deixar a pessoa isolada, sentindo-se desprezada, desamada.
Quando a pessoa sente incômodo por algo e este algo ganha dimensão, surge a discussão até que esta se mostra inaceitável; pior, imperdoável. Importante notar que, se não há desamor, há conflito de opinião e isto deve ser tratado de modo adequado, totalmente diferente de bater a porta na cara de quem causou o desagrado, ou simplesmente negar ao outro o convívio, pois desconecta-lo não trará alívio.
No fim das contas, somos todos família
neste decantado universo, como somos todos amor a ser cantado em prosa e verso. E se a concordância é uma tentativa, já o amor, este é da essência mais pura e viva: é o que nos faz crer que ao amar o diferente, nos aproximamos por inteiro do significado verdadeiro do que é ser gente! Então, na hora que colocar o balde na marca da máxima penalidade prá chutar sem piedade, saiba antes que não importa de qual lado se encontra a verdade, mas sim que o livro tem duas capas e nem por isto deixa de ser somente um. Por isto, vale a pena resistir ao intento de ao outro agredir ou dele desistir, pois sempre
haverá
algo mais a vir que dará sentido a sua trajetória de bem existir.
Assim, melhor lembrar que o preço da segregação poderá ser a complexa reconciliação e que a melhor ação é a que integra à humanidade cada individualidade.
Sem mais delongar, o que falta para recomeçar?