Filho
da inveja com o ódio e primo-irmão da mágoa, o rancor é a não aceitação do
outro, em qualquer condição que este outro apareça beneficiado em detrimento dos
interesses do que se sente magoado. Denota um caráter egoísta, pois somente admite
o benefício a si próprio e molda este egoísmo em argumentos razoáveis a
primeira vista, mas que não se sustentam em uma análise ampliada da questão
central e das questões periféricas a esta associada.
Como
já foi dito, é do casamento da inveja com o ódio que nasce o rancor. A inveja
se apresenta a esmo e não aceita o veredito que dá ao outro o que não pode
lograr para si mesmo. Mas é na infelicidade do encontro com o ódio que surge o
rancor, dificultando ainda mais a fecundidade do amor.
Sejamos
sinceros, não há motivo de rancor que não seja dissolvido pelo amor. Claro que
quem adota a postura rancorosa só anota dedo de prosa como detrator. O ódio o alimenta,
enquanto a inveja lhe é só elogio e a mágoa o aumenta, porquanto com ele peleja
por anos a fio.
Remédio eficaz para quem se
sente incapaz de mudar o padrão de pensamento é deixar por um momento de fixar
a atenção no móvel do sentimento que lhe causa esta fixação. Neste instante
pensar que é importante olhar para dentro de si e procurar o lugar aonde
escondeu a sua capacidade de amar a algo ou alguém, não importando a quem. Ao
encontrar este amor e deixando-se emocionar, a pessoa presa ao rancor irá
redirecionar a força que tem para valorizar este amor, guardando o “mas” para
longe deste olhar que a ternura consegue alcançar. Entender que não é o outro
que deve definir o seu jeito de ser e que nutrir o rancor é em verdade
magoar-se, machucar-se, a si mesmo ferir sem nada no universo mudar senão a
própria disposição de amar.
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